Avaliação da Medula Espinhal em Equinos

Avaliação da Medula Espinhal em Equinos

Prof Dra Roberta Basile Prof Dra Roberta Basile
19 de dezembro de 2022

Frequentemente pode não estar claro se um cavalo suspeito de afecção de coluna realmente possui um problema neurológico ou ortopédico. Isto pode ser verificado particularmente para anormalidades leves de andamento ou ainda em casos de traumas, em que tanto as doenças neurológicas quanto as ortopédicas são possíveis. As avaliações pelos métodos convencionais e da medicina tradicional chinesa (MTC) são complementares entre si. A avaliação tradicional permite identificar se a afecção é de fato neurológica, o local e a extensão superficial da lesão. Já o diagnóstico pela MTC fornece informações sobre as consequências da lesão na medicina interna, de acordo com os pontos de reflexos viscero- somáticos.

Exame da Medula pela Medicina Convencional

Após a avaliação do encéfalo e nervos cranianos, deve-se proceder para avaliação do pescoço, membros, tronco, cauda e ânus. Evidências de assimetrias musculares, inchaços localizados, diminuição de percepção da dor (hipoalgesia) ou ainda locais extremamente doloridos (hiperalgesia) devem ser consideradas.

Na maioria dos casos, as anormalidades de andamento por causas neurológicas estão associadas à paresia e ataxia. A fraqueza (paresia) geralmente está relacionada a grupos musculares extensores ou flexores e a ataxia se refere às alterações de movimentação articular, como a hipometria e hipermetria. A fraqueza de músculos extensores pode ser facilmente detectada pela facilidade em se alterar a trajetória do cavalo ao passo ao se tracionar sua cauda. Ao se referir à fraqueza de músculos flexores, nota-se uma passada mais plana, chegando até em movimentos de arrastar a pinça, principalmente quando colocado em curva.

Graus muito leves de ataxia podem ser exacerbados por meio de algumas manobras, tais como puxar o cabresto em movimento de serpentina, círculo, elevando a cabeça, caminhar em rampa, fazer paradas abruptas e afastar. Essas manobras alteram os sinais proprioceptivos, visuais, gravitacionais e vestibulares que são enviados ao sistema nervoso, evidenciando a possível existência de problemas A localização da lesão na medula espinhal pode ser verificada em função dos sinais clínicos apresentados, os quais estão diretamente relacionados a lesões de neurônios motores inferiores e superiores, como descrito na Tabela 2.

Tabela 2: Anormalidades clínicas associadas a lesões de diferentes segmentos da medula espinhal, adaptado de Furr & Reed (2008)

Seg. Espinhal

Sinais Clínicos

C1-C5

Tetraparesia ou tetraparalisia espástica nos 4 membros Pode ser mais acentuada nos MP’s

Déficit proprioceptivo nos MT’s e MP’s

C6-T2

Paresia ou paralisia espástica em MP’s e flácida em MT’s Atrofia muscular nos MT’s

Déficit proprioceptivo nos MT’s e MP’s

T3-L3

Paraparesia ou paraparalisia espástica em MP’s Déficit proprioceptivo nos MP’s

Andamento normal nos MT’s Retenção fecal

Retenção urinária

L4-S2

Paraparesia ou paraparalisia flácida em MP’s Déficit proprioceptivo nos MP’s

Atrofia muscular nos MP’s Andamento normal nos MT’s Retenção fecal

Retenção urinária

S3-Cd

Incontinência urinária Hipoalgesia anal e de cauda Flacidez de esfíncteres Tônus da cauda diminuído MT’s e MP’s normais


FURR & REED (2008) descrevem que as anormalidades de andamento podem ser classificadas de grau 0 (normal) a grau 5 (decúbito). A avaliação deve ser realizada utilizando-se as manobras de exacerbação descritas anteriormente.

Os melhores testes sugeridos por MAYHEW (1999a) a serem realizados durante o exame físico para auxiliar na detecção de lesões medulares são: a avaliação da assimetria de pescoço, tronco e mem- bros; o reflexo toracolaríngeo (Slap Test); reflexo cervicofacial e musculocutâneo; o tônus anal e de cauda; o reflexo anal; o exame de preenchimento do reto e vesícula urinária; a postura adotada em descanso; avaliação do andamento ao passo e trote e a avaliação do andamento com manobras de exacerbação.

COLAHAN (1999) e colaboradores listam os principais testes auxiliares que podem ser utilizados para diagnóstico das lesões neurológicas. A análise do líquido cerebroespinhal, coletado diretamente do forame magno ou da junção lombossacra, fornece informações sobre cor, opacidade, proteína total, glicose e celularidade e ainda permite realizar testes para a identificação de agentes infecciosos (ELISA, PCR, entre outros). A radiografia normal e a mielografia auxiliam na detecção de malformações, fraturas, luxações e eventualmente infecções no crânio e coluna cervical. A eletromiografia (EMG) é um método interessante para auxiliar na localização das lesões, realizado por meio de agulhas que funcionam como eletrodos e medem a atividade elétrica da região de interesse. Termografia e cintilografia são métodos interessantes para detectar anormalidades de fluxo sanguíneo superficial. As imagens termográficas podem aparecer anormais em situações de miosite, atrofia muscular, neurites e interrupções de nervos. Já a cintilografia é capaz de detectar massas anormais ou sítios de inflamação ao longo da coluna vertebral. A ultrassonografia auxilia no diagnóstico das lesões em que há comprometimento das funções urinárias, como na síndrome da cauda equina, por meio da verificação do grau de repleção vesical. Alterações estruturais da medula e coluna vertebral podem ser avaliadas ainda por meio de ressonância magnética, apesar de ser ainda um método pouco difundido na medicina veterinária de grandes animais.

Exame medular pela Medicina Tradicional Chinesa

O diagnóstico pela MTC é composto por cinco ações básicas: ouvir, perguntar, observar, cheirar e sentir. Em geral, um exame que utiliza os princípios orientais não se restringe somente ao sistema ou ao órgão afetado, mas sim avalia o paciente como um todo, em busca de desarmonias e bloqueios energéticos por todo o corpo. A medicina chinesa considera a função do corpo e da mente como o resultado da interação de substâncias vitais, o Qi, Xue (Sangue), Jing (Essência), Jin Ye (Fluidos Corporais) e o Shen (Mente). O Qi é o estado constante de fluxo de energia. Quando o Qi se estagna, a energia se transforma e se acumula na forma física, se apresentando como doenças.

O conceito de Yin-Yang também é muito importante e distintivo da MTC. É possível dizer que toda fisiologia, patologia e tratamento podem ser reduzidos a essa teoria. Yin-Yang representa qualidades opostas, porém complementares. Todos os sinais clínicos decorrem basicamente de um desequilíbrio entre Yin-Yang.

Juntamente à teoria do Yin-Yang, a teoria dos Cinco Elementos constitui a base da MTC. É composta pelo fogo, terra, metal, água e madeira, sendo que as interrelações entre os elementos permitem ao clínico estruturar o diagnóstico de forma racional e montar estratégias de tratamento buscando a harmonização entre eles. Segundo MACIOCIA (2007), os aspectos diagnósticos relatados aos cinco movimentos são: cores, sons, odores, emoções, sabores, tecidos, orifícios dos sentidos e climas. O diagnóstico em MTC, além de se basear nos fundamentos das teorias Yin-Yang e dos Cinco Elementos, também utiliza a palpação para a avaliação do paciente, especialmente em Medicina Veterinária.

SHOEN (2001) afirma os pontos diagnósticos mais importantes de cavalos estão localizados nas costas, paralelamente ao curso da medula espinhal. Estes pontos especializados são chamados Shu Dorsais, os quais estão intimamente relacionados às raízes nervosas sensitivas da medula e à cadeia de gânglios paravertebrais simpáticos. Estes pontos estão localizados sobre o meridiano da Bexiga, que possui 2 trajetos paralelos em cada um dos metâmeros. O trajeto interno, localizado a 3 tsun dos processos espinhosos (3 tsun = largura do casco), geralmente se relaciona a desarmonias dos meridianos de acupuntura. O trajeto externo, localizado a 6 tsun dos processos espinhosos, está intimamente ligado a desordens nos órgãos, Figura 4.

Figura 4 : Regiões de associação com os Zang-Fu (órgãos na MTC) em equinos. Obs.: O asterisco representa referência ao meridiano e não ao órgão (Fonte: Arquivo pessoal)

Nota-se que no equino não existem pontos Shu Dorsais como em humanos ou cães, mas sim regiões Shu Dorsais, as quais compreendem um conjunto de pontos coincidentes aos gânglios da cadeia paravertebral simpática, promovendo o chamado Reflexo Víscero-somático, Figura 5.

Figura 5: Alvos dos nervos simpáticos. 1) Origem toracolombar da inervação simpática. 2) Tronco simpático. 3) Gânglio cervi- cotorácico. 4) Gânglio celíaco. 5) Gânglio mesentérico cranial. 6) Gânglio mesentérico caudal. 7) Fibras simpáticas pós-ganglio- nares (Modificado de Furr & Reed, 2008).

Prof Dra Roberta Basile
Prof Dra Roberta Basile
Médica Veterinária de Pequenos Animais e Equinos. Atendimento especializado em ortopedia, neurologia e dor.